Arquivo

2022

CENAS COTIDIANAS

Em A guide to scenes of daily life on Athenian vases (Madison, University of Wisconsin Press, 2020, 272 páginas, brochura, US$34.95), John Oakley fornece um vasto catálogo de cenas quotidianas presentes em vasos atenienses datados entre 630-320 a.C. Tais cenas foram extraídas de uma variedade de suportes cerâmicos, de jarros para transporte (pithoi) até frascos de perfumes (lekythoi), produzidos por meio das três grandes tradições técnicas áticas (de figuras negras, figuras vermelhas e de fundo branco). As fontes estão divididas em dez capítulos temáticos, dos quais cabe ressaltar aqueles relacionados aos espaços domésticos e de trabalho, aos ambientes da cidade e do campo. Este guia permite a visualização de formas e suportes de representação das práticas de grupos subalternos e provê ferramentas para questionar seus graus de representatividade e das condições de produção, consumo e uso desses objetos figurados.

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ESCRAVOS NA GRÉCIA ANTIGA

Em Slaves and Slavery in Ancient Greece (Cambridge, 2021, 277 p., £18.99), Sara Forsdyke questiona como era ser um escravo na Grécia Clássica (500-300 a.C.). Partindo da definição de escravidão no pensamento grego, Forsdyke investiga, então, a trajetória dos escravizados desde os processos de escravização, os trabalhos que realizavam e as etnias relacionadas a trabalhos específicos até seus mecanismos de fuga, escape, bem como sua influência na cultura grega. A investigação é realizada por meio de fontes literárias, epigráficas, materiais, legais, discursivas, bem como por uma abordagem a contrapelo dos documentos produzidos pelos senhores de escravos. A autora argumenta que precisamos compreender a escravidão grega como uma experiência plural e central na sociedade grega para não reproduzirmos uma imagem incompleta e mistificante da própria Grécia Antiga.

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ESCRAVOS NO EGITO ROMANO

Em L’esclave dans l´Égypte romaine : choix de documents traduits et commentés (Liège: Presses Universitaires de Liège, 2020, 150 páginas, 14 euros), Jean Straus apresenta uma seleção de fontes, traduzidas por ele e outros estudiosos para o francês, sobre a escravidão no Egito Romano. Dentre as 157 fontes apresentadas, a maioria são papiros e ostraka, mas são incluídos, também, textos literários e epigráficos. O livro ainda oferece ferramentas para auxiliar a consulta e a transcrição dos documentos em suas línguas originais, a exemplo do Duke Data Bank of Documentary Papyri, mapas do Egito e da região de Fayyum, glossário sobre eventos, termos úteis para a compreensão dos textos, etc. Os documentos são organizados por temas, tratando desde a escravidão como instituição até as ações, sentimentos, conflitos e interações entre escravizados e entre escravos e livres.

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MULHERES CRISTÃS

Em Mulheres nos Cristianismos Paulinos (Rio de Janeiro: Kliné, 2021. R$30,00), Juliana B. Cavalcanti explora os modos de participação de mulheres nos primeiros movimentos cristãos. Seu estudo se opõe àquilo que a autora vê como um processo multissecular de silenciamento sobre a atuação das mulheres nas primeiras comunidades cristãs. A partir de uma crítica documental do corpus paulino, acompanhada de análise vocabular, comparações com inscrições e análise iconográfica, Cavalcanti realiza estudos de caso sobre as formas de participação das mulheres na difusão e consolidação de saberes e práticas religiosas desses primeiros cristianismos. Personagens como mulheres comuns, viúvas ricas e lideranças religiosas como Tecla estão presentes numa narrativa que combina história e arqueologia.

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EGIPTOLOGIA

The People of the Cobra Province in Egypt: A Local History, 4500 to 1500 BC (Oxford, Oxbow Books, 2020, 288 p., Capa dura, 55 euros), de Wolfram Grajetzki, é um livro pioneiro na Egiptologia por propor o estudo da história do Egito antigo, entre 4500 e 1500 a.C., a partir de baixo. Adotando uma abordagem marxista da escrita da história, Grajetzki realiza um estudo micro-histórico da província de Cobra (Uadjet), explorando evidências arqueológicas do cemitério de Qau, bem como fontes escritas de âmbito local e regional. Seu objetivo é investigar como as classes trabalhadoras dos pequenos vilarejos egípcios viviam e eram afetadas pelas decisões dos governantes. Por fim, mas não menos importante, o autor inova ao refletir sobre como o contexto político contemporâneo e as origens sociais dos egiptólogos têm marcado as visões sobre o passado egípcio predominantes na disciplina .

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ESCRAVOS NA ANTIGUIDADE TARDIA

Slavery in the Late Antique World, 150-700 CE (Cambridge University Press, 2022, Capa dura, 359 p., $ 120), editado por Chris L. de Wet, Maijastina Kahlos e Ville Vuolanto, é uma coletânea de estudos sobre a escravidão e as condições de vida dos escravizados na Antiguidade Tardia em suas variações culturais e geográficas. O livro e o resultado do esforço de uma equipe composta por membros dos Estados Unidos, da África do Sul, da Europa e da América Latina. Os autores colocam em perspectiva os escravizados nas regiões periféricas do Império Romano e apresentam a abordagens históricas comparativas, fontes escritas em cóptico, siríaco, árabe, latim e grego, e uma diversidade de inscrições e papiros. Também discutem as relações entre escravidão e discursos sociais, gênero, faixa etária e etnicidade, entre outros assuntos. Esta diversidade de temas, abordagens e fontes torna a obra uma ótima introdução às pesquisas mais recentes sobre a temática neste período histórico específico.

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GEOGRAFIA ILETRADA

Em Illiterate geography in classical Athens and Rome (Routledge, 2020, 278 p., Capa dura, $128,00 [eBook $39,16]), Daniela Dueck investiga a circulação de conhecimentos geográficos por meios auditivos e visuais entre os grupos iletrados de Atenas e de Roma em seus períodos de expansão (508-338 a.C. e 264 a.C.-14d.C.). Os documentos investigados pela autora se tratam de comunicações orais preservadas por escrito, performances públicas e não textuais, bem como materiais visuais, permitindo-a acessar informações geográficas transmitidas para além dos pequenos círculos das elites letradas. O livro demonstra, assim, que muita informação geográfica circulava entre as populações de Atenas e de Roma, estimulando novas investigações acerca da construção e da transmissão desses conhecimentos entre os grupos subalternos no Mediterrâneo Antigo.

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ATENAS NAS MARGENS

Em Athens at the margins: pottery and people in the early Mediterranean world (Princeton, Princeton University Press, 2021, 344 páginas, 45 dólares), Nathan Arrington estuda o surgimento e a difusão da cerâmica grega de estilo protoático em Atenas, no século VII a.C. Sua abordagem parte da recusa do paradigma explicativo “orientalizante” e do enfoque nas práticas de consumo das elites. Arrington concentra-se nas interações estabelecidas nas margens e por marginalizados: tanto no âmbito geográfico (nos contatos entre Atenas, a Ática e o Mediterrâneo), quanto social (nas relações de produção e consumo dos objetos). Para isto, investiga os contextos materiais de ateliês, necrópoles, santuários e simpósios. Vale ressaltar seu enfoque na cooperação de artesãos para a grande variabilidade estilística da cerâmica protoática. Contudo, cabe conferir até que ponto as experimentações e diversidade dos objetos estariam conectadas com a alegada falta de hegemonia cultural e a suposta indistinção sociocultural entre as elites e os demais atores sociais.

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INSTRUMENTOS DE ESCRITA

Em Manual of Roman Everyday Writing Vol. 2 Writing Equipment (LatinNow ePubs, 2021, e-book, disponível para download aqui), Anna Willi introduz os leitores aos instrumentos de escrita utilizados para a produção de textos manuscritos no Império Romano. O catálogo de equipamentos discutidos inclui utensílios para escrita (estilete, cálamo, pincel) e suportes (madeira, papiro, pergaminho, metais e outros), além de vários outros acessórios (como tintas, estojos, espátulas, etc.). O catálogo é precedido por uma útil apresentação dos aspectos sociais da escrita e das técnicas utilizadas para se escrever no Império Romano. Ainda que ressaltando o prestígio social associado à escrita na sociedade romana, a autora demonstra como a escrita era também utilizada de forma funcional em comércios, centros de produção e acampamentos militares por pessoas sem educação formal e não apenas por homens, mas também por mulheres.

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ESCRITA CURSIVA ROMANA

Em Manual of Roman Everyday Writing Vol. 1 Scripts and Texts (LatinNow ePubs, 2021, e-book, disponível para download gratuito aqui), Alan Bowman e Alex Mullen apresentam um manual para a leitura e compreensão de documentos escritos em cursiva romana, ou seja, a escrita do dia a dia. Os autores descrevem os tipos de documentos que utilizam essa escrita, as principais publicações com esses documentos acompanhadas por links para acesso. O livro também oferece exemplos práticos sobre o aprendizado e os usos da escrita em diferentes partes do Império Romano, demonstrando como pessoas de diversas classes sociais aprendiam e utilizavam o latim de diferentes maneiras, seja nos centros produtores de cerâmica, nos acampamentos militares ou em funções da administração provincial.

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2021

GLADIADORES

Nesta segunda edição, revista e ampliada, de Gladiadores na Roma Antiga: dos combates às paixões cotidianas (Curitiba, Editora UFPR, 2021, 223 páginas, 38 reais), Renata Senna Garraffoni mantém o essencial de sua investigação sobre a vida cotidiana e as percepções populares dos gladiadores no início do Principado Romano, por meio da documentação epigráfica, literária e arqueológica, mas também aprofunda aspectos apenas insinuados na edição anterior. Em particular, há uma maior preocupação de problematizar as formas de construir o passado a partir das questões políticas do presente e uma abertura para as questões de gênero, ao investigar o cotidiano dos gladiadores por meio da análise das percepções de masculinidade no período. Explorando temas pouco debatidos na historiografia sobre os combates, Garraffoni nos convida a repensar o passado romano de maneira mais plural e a “ouvir as vozes dispersas daqueles que lutavam nas arenas”.

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CONSTRUTORES DAS PIRÂMIDES

Quem construiu as pirâmides do Egito? Les papyrus de la mer Rouge II: Le “journal de Dedi” et autres fragments de journaux de bord (Papyrus Jarf C, D, E, F, Aa) (Paris, Institut français d’archéologie orientale, 2021, 312 páginas, 49 euros), por Pierre Tallet, oferece novos elementos de resposta a essa pergunta. Completando a edição de um lote de papiros descoberto em 2013 no sítio do uádi el-Jarf, os papiros deste volume são fragmentos de “diários de bordo” do início da IV Dinastia que nos dão acesso a pessoas concretas envolvidas na construção das pirâmides, como o inspetor Merer e o escriba Dedi. Eles nos mostram que a equipe de trabalhadores estava dividida em quatro grupos, cada um com 40 homens dirigidos por um inspetor, e detalham o sistema de transporte dos blocos de pedra das minas de calcário de Tourah até Gizé. A descoberta ainda revela que os trabalhadores estavam envolvidos em muitas outras atividades e eram tratados como verdadeiros “trabalhadores de elite”, recebendo inclusive muitas vantagens.

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NOVO TESTAMENTO

Class Struggle in the New Testament (Lanham, MD, Fortress Academic, 2019, 298 páginas, 115 dólares), editado por Robert Myles, explora os conceitos de “classe” e de “luta de classes” nos estudos bíblicos. Pautados sobre a análise dos textos e das tradições que compõe o Novo Testamento, os diferentes autores discutem questões como a utilidade de categorias como camponeses, empregados e grupos intermediários no tempo de Jesus, as lutas coletivas, os usos bíblicos da escravidão como metáfora, temas mais abrangentes como as implicações da ideologia capitalista sobre a interpretação da Bíblia, dentre outros. O livro se torna, desse modo, uma referência para refletirmos, de maneira mais ampla, sobre as realidades políticas e econômicas e as relações e lutas sociais no Mediterrâneo do primeiro século de nossa era.

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RELIGIÃO E ESCRAVIDÃO

Em Religion Romaine et esclavage au Haut-Empire: Rome, Latium et Campanie (Roma: École Française de Rome, 2021. 421 p., €35, disponível online), Bassir Amiri aborda as práticas religiosas dos escravizados no Império romano entre os séculos I a.C. e III d.C. Para além da abordagem de uma exclusão dos escravizados nas performances religiosas, Amiri demonstra as formas e as condições de participação desses atores sociais em contextos como os de sacrifícios públicos, de culto dos uici, nos collegia, familia e rituais mortuários. Com amplo uso de documentação epigráfica e arqueológica em confrontação com fontes literárias, Amiri aponta que não se trata de definir uma religião única dos escravizados, e sim delinear a multiplicidade de relações com os fenômenos religiosos que os escravizados experimentaram em seus contextos mais amplos de sociabilidade, como a casa e a cidade.

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JÚLIO CÉSAR

Em Julius Caesar and the Roman People (Cambridge University Press, 2021, 690 p., US$ 59,99, capa dura), Robert Morstein-Marx procura devolver o caráter histórico republicano de Júlio César. Para isto, o autor parte da compreensão de que a República romana não era uma oligarquia, mas uma ordem política republicana participativa, em que o Povo era associado com a aristocracia não apenas na direção de eventos políticos, como também na determinação do que era e deveria ser a República. Compreender esta força da plebe romana permite questionar e minar interpretações teleológicas sobre a invariável aspiração autocrática de César e, por conseguinte, sobre o fim inevitável da República. Assim, Morstein-Marx demonstra que, em um regime que combinava poder popular com empreendimento aristocrático, as escolhas e as relações tecidas por César eram representativas das tradições republicanas romanas de liderança.

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GRAMSCI

Antonio Gramsci and the Ancient World (Routledge, 2021, 402 páginas, 160 dólares [Ebook 44,05 dólares]), editado por Emilio Zucchetti e Anna Maria Cimino, reúne ensaios sobre as relações entre a obra do pensador marxista italiano Antonio Gramsci e a antiguidade greco-romana. As autoras e os autores analisam temas da Grécia Arcaica à Antiguidade Tardia à luz de concepções gramscianas, as recepções de suas teorias entre classicistas e antiquistas e as próprias reflexões de Gramsci sobre aspectos da história greco-romana. Para estudiosos da História Antiga “a partir de baixo”, o livro apresenta um pensador importante para o desenvolvimento dessa abordagem na História em geral, demonstrando, também, as maneiras inovadoras como suas teorias auxiliam a colocar questões aos documentos antigos nesta perspectiva.

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ESCRAVIDÃO ANTIGA

Em Historicising Ancient Slavery (Edinburgh, Edinburgh University Press, 2021, 280 p., 85 libras), Kostas Vlassopoulos estuda o fenômeno da escravidão e sua centralidade para os estudos das sociedades gregas e romanas na Antiguidade. Insurgindo-se contra tendências que atribuem à escravidão antiga um caráter a-histórico, tipológico, compreendido apenas pela perspectiva dos senhores, Vlassopoulos propõe um estudo historicista e processual da escravidão, que pretende demonstrar como o fenômeno se transformou ao longo do tempo e como se desenvolveu em localidades distintas. Além disso, o autor procura entender a escravidão também pela perspectiva dos escravizados, com enfoque para como estes concebiam suas experiências e como construíam suas próprias identidades a partir das relações com seus senhores, com cidadãos livres e com outros escravizados.

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CAMPONESES

The Roman Peasant Project 2009-2015: Excavating the Roman Rural Poor (University of Pennsylvania Press, 2021, 824 páginas, 120 dólares), editado por Kim Bowes e dividido em dois volumes, apresenta os resultados de um projeto arqueológico inovador, voltado especificamente a compreender a vida dos camponeses pobres na Itália antiga. Conduzido por uma equipe ítalo-estadunidense em Cinigiano, região da Toscana, entre 2009 e 2015, o projeto abordou aspectos diversos da vida do campesinato entre os séculos II a.C. e VI d.C.: seus usos da terra, alimentação, mercados e mobilidade. Os resultados oferecem uma visão mais complexa dos camponeses do que a sugerida pelos documentos escritos ou pelos modelos tradicionais, revelando sofisticados sistemas de uso da terra, acesso a bens de consumo, mas também o constante movimento dessas populações.

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CRISTIANISMO PRIMITIVO

Em Religião e Poder no Cristianismo Primitivo (São Paulo, Paulus, 2020, 208 páginas, 27 reais), Paulo Nogueira estuda a experiência religiosa dos primeiros cristãos por meio da apocalíptica judaica, dos evangelhos, do livro do Apocalipse, dos papiros mágicos gregos e de amuletos escritos. O autor situa o contexto social e cultural de produção dessas fontes, investigando as formações comunitárias dos primeiros cristãos por meio delas. As viagens à corte celestial, a glossolalia e os relatos de transfiguração são considerados pelo autor como experiências constitutivas da espiritualidade e dos grupos cristãos que influenciam suas relações com instituições, com outras religiões e entre os próprios cristãos. O autor também discute a identidade dos primeiros cristãos por meio de passagens bíblicas e sua vida cotidiana a partir de símbolos religiosos.

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LOJAS ROMANAS

Em The Roman Retail Revolution: The Socio-Economic World (Oxford, Oxford University Press, 2018. p. 320. Capa dura, 85 dólares), Steven J. R. Ellis argumenta, a partir de uma rica documentação arqueológica, centrada em Pompeia, mas com fontes de cidades de todo o mundo romano, como o comércio estabelecido em lojas instaladas defronte às ruas torna-se parte marcante da experiência urbana romana. No processo que estuda, do século II a.C. até o III de nossa era, ele aponta três “revoluções” sucessivas: o surgimento das lojas (tabernae), a especialização desses estabelecimentos em funções específicas e sua difusão por todo o Império. Assim, mais do que focar nas trocas em nível macro, Ellis demonstra os impactos do comércio varejista na experiência urbana quotidiana e na vida dos populares.

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VOZES MARGINALIZADAS

Nas fontes greco-romanas, os escravizados são, frequentemente, descritos como não confiáveis e incapazes de dizerem a verdade, exceto sob tortura. Em Slavery, Gender, Truth, and Power in Luke-Acts and Other Ancient Narratives (Palgrave Macmillan, 2019, XXIV, 247 páginas, Capa dura, 83,19 euros [Ebook Kindle, 66,99 euros]), Christy Cobb coloca em perspectiva três mulheres escravizadas do Evangelho de Lucas e dos Atos dos Apóstolos para analisar, a despeito de seu status e gênero, sua função narrativa de quem diz a verdade ao poder, confirmando a teologia de Lucas em circunstâncias diversas. Essa análise é realizada a partir da teoria de Bakhtin em função de uma abordagem feminista, bem como pela correlação das personagens com outras escravizadas descritas nos Atos Apócrifos, nos romances antigos e representadas em monumentos funerários. Em geral, a autora mostra como essas vozes marginalizadas contradizem percepções antigas, rompendo hierarquias convencionais.

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GRÉCIA E ROMA

Nesta nova edição de Grécia e Roma (Editora Contexto, 2020, 153 páginas, 35 reais), Pedro Paulo Funari apresenta, de maneira didática, um panorama sobre as culturas grega e romana, desde suas origens até sua influência em nossa própria sociedade. Utilizando fontes arqueológicas, epigráficas e literárias, o autor aborda grandes temas, como organização política e conflitos, mas também explora a forma como as pessoas viviam e se relacionavam, esmiuçando diferenças entre as elites e os cidadãos comuns, organização e mobilidade social, as diferentes formas de ver e tratar escravos (ou, no caso de Esparta, os hilotas, que não eram escravos, mas trabalhadores submetidos), mulheres e crianças, a sexualidade, a arte e a religião. O autor problematiza alguns conceitos e oferece uma ampla gama de fontes que podem servir de base para uma pesquisa mais aprofundada, inclusive para aqueles interessados nos estudos dos grupos populares.

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HISTÓRIA VISTA DE BAIXO

Escrever uma história antiga a partir de baixo é possível? Que fontes podemos usar? Que métodos e abordagens podemos empregar? Que conceitos são necessários para este esforço? Em Ancient History from Below: Subaltern Experiences and Actions in Context (Routledge, 2022, 320 páginas, capa dura: 160 euros; eBook: 48,95 euros), editado por Cyril Courrier e Julio Cesar Magalhães de Oliveira, um grupo de historiadores e arqueólogos de diferentes países procura responder a esses desafios a partir de estudos de caso que vão desde a Grécia clássica até a Antiguidade Tardia. Unidos pela convicção de que o estudo das experiências e das ações dos grupos subalternos na Antiguidade não é somente possível como, também, necessário, os autores buscam caminhos para uma escrita da História Antiga que seja ao mesmo tempo mais plural, mais inclusiva e, por isso mesmo, mais emancipadora.

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ESCRAVIDÃO E SEXUALIDADE

Editado por Deborah Kamen e C.W. Marshall, Slavery and Sexuality in Classical Antiquity (University of Wisconsin Press, 2021, 336 p., US$ 99,95) é uma coletânea que intenta interseccionar sexualidade e escravidão na Antiguidade grega e romana. A principal questão de seus 13 capítulos é como as práticas sexuais dos escravizados se inseriam em contextos relacionais de poder, domínio e violência. Além disso, há o esforço dos autores em alcançar as formas de resistência e as instâncias de ação dos escravizados nessas circunstâncias de dominação e sexo. Com o uso de uma variedade de fontes, tais como epigráficas, literárias, jurídicas, materiais e representações artísticas, os autores apontam para as inconsistências dos discursos dos proprietários sobre seus escravizados e oferecem modos de perceber as subjetividades, lutas, traumas e os desejos sexuais dos próprios escravizados.

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LIBERTOS

Em De Escravos a Benfeitores: os libertos e a munificência na Hispania Romana (São Carlos, Pedro & João Editores, 2021, 211 páginas, 30 reais), Filipe Noé da Silva investiga como escravos alforriados na província romana da Bética manifestaram generosidade para com suas cidades como forma de garantir outra reputação social, rompendo com seu passado de escravidão. O estudo se foca nos séculos I e II d.C. e toma como fontes os registros epigráficos e textos da tradição manuscrita, como os escritos de Plínio, o Jovem, e de Cícero. O autor aborda, dessa maneira, uma prática comum aos ricos e notáveis locais das cidades helenísticas e imperiais romanas de investimento material em suas comunidades cívicas para assegurar o reconhecimento da coletividade, mas sob uma perspectiva original e instigante: a de um grupo subalterno que, mesmo desprovido de plenos direitos, soube atuar para minimizar as consequências de seu passado de escravidão.

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TRABALHO E IDENTIDADE

Em The Dignity of Labour: Image, Work and Identity in the Roman World (Chalford: Amberley Publishing, 2021. 288 p., £20, capa dura), Iain Ferris apresenta como representações artísticas de ofícios e de trabalhadores romanos eram utilizadas como meios de construção identitária e negociação de status social no mundo romano. Escrito para um público amplo, Ferris analisa diversas evidências materiais do ocidente romano, sobretudo inscrições e monumentos mortuários, que representavam os ofícios dos trabalhadores urbanos, no interior de um amplo recorte temporal, que vai da República até a o Império Tardio. Trata-se de uma boa introdução ao tema da autorrepresentação identitária e para o debate sobre as formas de inserção e distinção de trabalhadores de várias condições econômicas no interior das estruturas sociais romanas ao longo do tempo.

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100 TEXTOS

100 textos de História Antiga (Editora Contexto, 2021, Brochura, 160 páginas, 37 reais), editado por Jaime Pinsky, aparece em edição comemorativa dos 50 anos da clássica coletânea de fontes do Egito e da Mesopotâmia antigos, da Grécia Clássica e do Império Romano traduzidas para o português brasileiro na década de 1960. A obra possui grande importância no ensino de História Antiga no Brasil por permitir a professores e alunos o acesso a documentos, até então, disponíveis somente nas línguas originais e em traduções para o inglês e o francês. As fontes são organizadas por temas, estimulando análises comparativas, e tratam de assuntos diversos que vão das transformações políticas ao escravismo, estrutura familiar e papel das mulheres, tornando-as de igual interesse, portanto, às estudiosas e aos estudiosos dos grupos subalternos na Antiguidade.

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CÍCERO

Em Defesa de Milão (Archeditora, 2021, 216 páginas, Brochura, 54,90 reais), traduzido pela primeira vez para o português brasileiro por Marlene Borges, é um discurso proferido por Cícero em favor de Milão, candidato a cônsul exilado por haver assassinado Públio Clódio, o mais radical dos políticos populares no último século da República Romana. Borges inclui, ainda, a tradução de um comentário de Ascônio que se contrapõe à retórica de Cícero. Em conjunto, os dois textos nos permitem discutir o engajamento político a partir das circunstâncias que levaram ao assassinato de Clódio e da comoção popular que ele desencadeou na cidade de Roma, expressa em revoltas que resultaram, entre outros incidentes, no incêndio do Senado. Em tradução direta do original e formato bilíngue, Latim-Português, a edição inclui uma Introdução sobre os acontecimentos narrados e aspectos da retórica de Cícero, bem como notas da tradutora.

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RELIGIOSIDADE POPULAR

Em The Dancing Lares and the Serpent in the Garden: Religion at the Roman Street Corner (Princeton University Press, 2017, 416 p., 48 dólares), Harriet Flower se dedica ao estudo dos lares, divindades protetoras dos lugares, representadas em clima de festa e aos pares, dançando com túnicas curtas e despejando o vinho. Por meio de fontes literárias, arqueológicas e epigráficas de sítios na Grécia e na Itália, Harriet Flower estuda o culto aos  Lares em suas diferentes representações e funções, e convida o leitor a conhecer o mundo da religiosidade popular romana, exercida nas esquinas e nos altares domésticos, presente em diferentes fases da vida. Assim, demonstra, o processo de construção de um senso de comunidade no interior dos grupos subalternos romanos por meio das práticas religiosas.

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IDENTIDADES PROFISSIONAIS

Em Carving a Professional Identity. The occupational epigraphy of the Latin West (Oxford, Archaeopress, 2021, 119 páginas, 25 libras), Rada Varga estuda as relações sociais nas províncias ocidentais do Império Romano por meio das representações dos trabalhadores em registros epigráficos feitas por eles mesmos, entre os séculos I-III de nossa era. Por meio de uma análise qualitativa e quantitativa, com enfoque nas ocupações, distribuição espacial e nas formas dos monumentos, Varga analisa as especificidades identitárias de cada categoria profissional. Ao fim, há um catálogo extenso com todos registros epigráficos utilizados, com nome, profissão, província e datação. Cada registro ainda conta com indicação de sua entrada na base de dados Romans 1by1, de acesso livre, em que é possível explorar maiores detalhes sobre cada inscrição particular.

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PORTADORES DE DEFICIÊNCIAS

Em Disabilities and Disabled in the Roman World: A Social and Cultural History (Cambridge, Cambridge University Press, 2018, Capa dura, 248 páginas, 99,99 dólares), Christian Laes parte de definições contemporâneas de deficiências físicas e mentais, analisando as experiências sociais e as percepções culturais sobre pessoas portadoras dessas características no Império Romano. Investigando documentos escritos, representações imagéticas, ossaturas humanas, Laes discute as deficiências mentais e cognitivas, a cegueira, a surdo-mudez, as dificuldades para discursar e para se movimentar de pessoas diversas no período. O livro apresenta uma síntese dos tratamentos e dos discursos médicos, filosóficos e patrísticos, das experiências cotidianas e das chances de sobrevivência de pessoas portadoras de deficiências no mundo romano, estimulando novos estudos sobre o tema.

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COLONIZAÇÃO E SUBALTERNIDADE

Em Colonization and Subalternity in Classical Greece: Experience of the Nonelite Population (Cambridge University Press, 2017, Brochura, 34,99 dólares), Gabriel Zuchtriegel reconstrói as experiências das populações subalternas nas colônias gregas do período clássico (séculos V e IV a.C.). Este estudo é realizado por meio de dados arqueológicos, documentos literários e fontes epigráficas analisados em conjunto e iluminados por uma teoria pós-colonial que inclui nos processos de subalternização  razões socioeconômicas, mas, também, étnicas e de gênero. Além de iluminar de forma inovadora o mundo grego colonial, o livro é também fundamental por abordar alguns dos principais problemas envolvidos no estudo da subalternidade no Mediterrâneo Antigo.

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SUBÚRBIOS ROMANOS

Em Life and Death in the Roman Suburb (Oxford, Oxford University Press, 2020, 304 páginas, Capa dura, 69.53 dólares [Ebook Kindle, 66.05 dólares]), Allison Emmerson parte da relação conflituosa entre monumentos funerários e espaços urbanos das cidades romanas para investigar as características materiais e, portanto, atividades humanas desenvolvidas nos espaços extramuros, os subúrbios. Abrangendo subúrbios de dezenas de cidades da península Italiana, Emmerson os compreende como mais do que interlúdios entre os mundos rurais e urbanos, observando a coexistência entre túmulos e habitações, tabernas, oficinas e lojas sem qualquer paradoxo  (em contraste com os limites murados das cidades). A imagem dos subúrbios que emerge, portanto, é de microcosmos cujos mortos estão presentes, mas que são, também, repletos de vida. O livro nos permite, assim, refletir sobre as interações entre pessoas e atividades distintas, de camadas sociais e características diversas, mesmo que essas interações e atividades não sejam, necessariamente, o foco do estudo.

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VIDA QUOTIDIANA

Daily Life in Late Antiquity (Cambridge: Cambridge University Press, 2018, x + 250 páginas, 21,78 libras), de Kristina Sessa, é um livro sobre práticas e experiências rotineiras de diferentes grupos sociais no Império Romano Tardio. Nele, o leitor é levado a compreender os ritmos que constituíam os mundos rural e urbano, a composição das famílias e casas pobres e ricas, as relações mantidas com os corpos, de cuidados médicos aos vestuários, as práticas e os rituais religiosos, e os modos com que o Império se fazia presente na vida de seus habitantes. Sessa integra e correlaciona elementos abordados geralmente em separado, tais como campo e cidade, pobres e ricos, com intuito de demonstrar a fluidez destas interações, sem deixar de sublinhar as relações de poder existentes. Escrito para um público amplo, com uso rico e diversificado de fontes, o livro é uma ótima porta de entrada para os debates sobre a vida quotidiana na Antiguidade Tardia.

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2020

MULHERES GREGAS

Em Slave-Wives, Single Women and “Bastards” in the Ancient Greek World: Law and Economics Perspectives (Oxford; Philadelphia: Oxbow Books, 2018, 224 páginas, capa mole, 38 euros) Morris Silver analisa uma vasta documentação literária e epigráfica para compreender a situação legal e econômica das mulheres gregas em relação ao matrimônio. Investiga, em particular, as esposas com estatuto de escravas e as mulheres solteiras. No primeiro caso, o autor ressalta a liberdade que desfrutavam para administrar suas casas na ausência dos maridos e a capacidade de acumularem riquezas para si e para seus herdeiros. No segundo caso, contrariando uma visão que as compreendia, necessariamente, como prostitutas, observa a dedicação de muitas delas à produção e ao comércio têxtil. Em geral, Silver apresenta uma visão dinâmica da situação das mulheres gregas em relação ao matrimônio.

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PLAUTO

Leandro Dorval Cardoso traz para o português uma das mais conhecidas peças do dramaturgo romano Plauto (século III a.C.), O Anfitrião (São Paulo, Editora Autêntica, 2020, 176 páginas, R$ 54,90). Farsa mitológica sobre o nascimento de Hércules, ela conta como Júpiter assume a forma de Anfitrião, comandante do exército tebano, durante sua ausência para passar uma noite com Alcmena, sua esposa, desencadeando confusões em seu retorno. Em sua trajetória, Anfitrião é acompanhado pelo seu escravo Sósia, cujo protagonismo é marcante na peça. Por meio de Sósia, podemos vislumbrar aspectos da escravidão romana que vão desde a opinião pública sobre como um escravo deveria se comportar até os temores e as aspirações dos escravos, sempre presentes em suas falas. A edição possui formato bilíngue Latim-Português e a tradução, poética e rítmica, é direta do original.

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ANTIGUIDADE TARDIA

Em A Social and Cultural History of Late Antiquity (New Jersey, Wiley, 2018, U$ 37,99 e-book; U$ 46,75, p. xxix + 285), Douglas Boin explora múltiplas questões sobre a Antiguidade Tardia “de baixo para cima”, com a preocupação de integrá-las em quadros sociais mais amplos. Boin perpassa temas tão diversos como mobilidade social, vida urbana, organização política, laços familiares, constituição de comunidades e religiosidades, sempre procurando estabelecer um diálogo entre passado e presente e discutindo as questões políticas e de poder envoltas nesses temas. A partir de uma gama diversificada de fontes, somos introduzidos numa narrativa de histórias de pessoas, grupos, objetos e ideias que se entrecruzam no Mediterrâneo de fins do século III até início do VIII.

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​ÁFRICA ROMANA

Em Sociedade e Cultura na África Romana: oito ensaios e duas traduções (São Paulo: Intermeios, 2020, 252 páginas, 55 reais), Julio Cesar Magalhães de Oliveira apresenta a história do Norte da África desde a conquista romana até a Antiguidade Tardia a partir de baixo, enfatizando as experiências de pastores, soldados, camponeses e a história do cristianismo. Essa história é analisada nos oito ensaios que constituem o livro, o qual traz ainda a tradução comentada de fontes, uma epigráfica e outra da tradição manuscrita, inéditas em língua portuguesa. No decorrer dos ensaios, em diálogo com debates recentes sobre o significado das ações populares no período, Magalhães de Oliveira correlaciona algumas das formas e dos meios dessas ações, expressas em protestos de camponeses e em conflitos religiosos, com as condições derivadas da integração da África às estruturas do Império Romano. Aliada à erudição e ao rigor analítico, o livro é marcado por uma linguagem fluida, tornando-o acessível a um público amplo.

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OPINIÃO PÚBLICA

Em Public Opinion and Politics in the Late Roman Republic (Cambridge, Cambridge University Press, 2017 [capa mole, 2020], xii+270 páginas, 39,99 dólares), Cristina Rosillo-López investiga os mecanismos de funcionamento da opinião pública na República Romana Tardia como parte da política informal. A autora explora a interação e a oposição política entre a elite e o povo por meios como os rumores, as fofocas, a literatura política, os versos populares e os grafites. Ela propõe a existência de uma esfera pública no período, analisa a opinião pública como um sistema de controle e estuda a sociabilidade e os encontros informais nos quais a opinião pública circulava. O que emerge deste estudo é um conceito de participação política do povo que não é mais restrita às eleições ou à participação nas assembleias.

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MULHERES E GÊNERO

O que os grafites nos dizem sobre como agiam e o que pensavam as mulheres de Pompeia? O que a reação dos discípulos de Jesus ao verem-no conversando com uma mulher nos diz sobre as relações de gênero nas primeiras comunidades cristãs? Essas e outras questões são tratadas em Mulheres, Gênero e Estudos Clássicos: um diálogo entre Espanha e Brasil (Barcelona: Universitat de Barcelona; Curitiba: UFPR, 2020, 373 páginas, 180 reais), livro originado da colaboração entre antiquistas da Espanha e do Brasil, organizado por Renata Senna Garraffoni e Manel García Sanchez. As autoras e os autores versam sobre as relações de gênero na Grécia e na Roma antigas e suas representações, contribuindo para o avanço dos estudos sobre as mulheres a partir de uma visão crítica quanto à sua marginalização nas narrativas históricas tradicionais.

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APÓCRIFOS

Os atos dos apóstolos chamados “apócrifos” são aqueles que não foram incluídos no cânone bíblico, mas eles circulavam livremente nas primeiras comunidades cristãs. Valtair Afonso Miranda traz para o português os Atos Apócrifos de Pedro (São Paulo, Paulus, 2019, 96 páginas, 19 reais). Trata-se de uma fonte interessante para o estudo da cultura popular e dos subalternos nas comunidades cristãs dos séculos II e III. O texto é marcado pela forte presença de situações miraculosas, folclóricas e inusitadas, como um cachorro falante que anda em duas patas e a ressurreição de um peixe defumado, bem como de pessoas em situações de adversidade social, mulheres viúvas e adúlteras, pobres e destituídos em geral. A edição teria muito a ganhar com uma tradução direta do original e um formato bilíngue.

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ESCRAVIDÃO

Em Ancient Greek and Roman Slavery, (Malden, Wiley, 2018, 264 páginas, capa mole, 36.25 dólares) Peter Hunt parte da centralidade da escravidão como instituição na antiguidade e objeto de reflexão na modernidade e na contemporaneidade para introduzir o leitor às questões mais discutidas sobre o tema. O livro é construído a partir de uma abordagem comparativa entre a Grécia e a Roma antigas que versa sobre as relações entre a escravidão e a economia, a política, a sociedade e a cultura por meio de um escopo amplo de evidências desde historiográficas até epigráficas. Dentre os temas introduzidos, Hunt não se limita às normas e ao lugar dos escravos nas sociedades greco-romanas, explorando também suas possibilidades de ação, as “armas dos fracos” que lhes permitiam resistir à opressão social cotidiana.

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PROSTITUIÇÃO

Em The Brothel of Pompeii: sex, class and gender at the margins of Roman Society (Cambridge: Cambridge University Press, 2019, 266 páginas, 95 dólares), Sarah Levin-Richardson examina as ruínas arqueológicas de um bordel – o chamado Lupanare – que funcionava na cidade de Pompeia. De início, Levin-Richardson reconstrói e da vida ao Lupanare a partir da análise da arquitetura, decoração, objetos e grafites procedentes do local. Em seguida, explora as experiências – sociais, físicas e emocionais – tanto das prostitutas quanto da clientela do bordel. The Brothel of Pompeii é um trabalho interessante sobretudo para aqueles que desejam conhecer a história da prostituição romana a partir da experiência de mulheres, escravos, trabalhadores e outros grupos subalternos.

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APULEIO

O Asno de Ouro, de Apuleio (trad. Ruth Guimarães, prólogo de Adriane da Silva Duarte, São Paulo, Editora 34, 2019, 480 páginas, R$ 88) é o único romance latino da Antiguidade a sobreviver na íntegra até hoje. Narra as desventuras do jovem Lúcio que, pagando o preço de sua curiosidade pela magia, se transforma em um burro, porém sem perder sua inteligência. Raptado por um bando de salteadores e passando depois por vários donos, esse observador insuspeito descreve a vida de homens e mulheres de todas as classes sociais, inclusive dos grupos subalternos e marginalizados pouco retratados na literatura antiga. Edição bilíngue, com o texto original latino e a tradução para o português de Ruth Guimarães, o livro conta ainda com a excelente introdução de Adriane da Silva Duarte.

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HISTÓRIAS DE ROMA

Um escravo em Roma podia se casar? Os romanos eram machões? Como as mulheres romanas cultivavam a amizade? Essas e outras questões são os temas de Roma Antiga: Histórias que você sempre quis saber (São Paulo: Fonte Editorial, 2019, 142 páginas, sem preço), novo livro de Pedro Paulo Funari e Filipe Silva. Os autores apresentam, de forma leve e agradável, uma série de histórias sobre o mundo romano, muitas delas sobre os subalternos, a gente comum. As charadas populares, as gozações dos eleitores, a paquera à Romana, o vinho, as roupas e as latrinas são apenas alguns dos temas desse livro que pode servir como um bom ponto de partida para quem deseja conhecer um pouco da vida de todos os dias na Roma antiga.

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ESTUDOS CLÁSSICOS

A People's History of Classics, de Edith Hall e Henry Stead (Londres e Nova Iorque, Routledge, 2020, 670 páginas, 26,39 libras, capa mole) explora a influência do passado clássico na vida das pessoas da classe trabalhadora na Grã-Bretanha e na Irlanda do final do século XVII ao início do século XX. Utilizando diversas fontes de informação, publicadas e inéditas, em arquivos, museus e bibliotecas do Reino Unido e da Irlanda, Hall e Stead examinam a experiência da cultura clássica na classe trabalhadora, desde a Declaração de Direitos de 1689 até a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Como mostram os autores, a educação clássica não precisa ser elitista ou reacionária. Se ela foi muitas vezes o currículo do império, o interesse dos trabalhadores e do movimento operário pelos clássicos nos mostra que ela pode ser também o currículo da libertação.

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2019

CULTURA POPULAR

Popular Culture in the Ancient World (ed. Lucy Grig, Cambridge, Cambridge University Press, 2017, x+369 páginas, 110 dólares), é o primeiro livro a oferecer um estudo interdisciplinar do assunto. Um grupo de estudiosos de vários países enfrenta neste livro um leque fascinante de temas e objetos: desde oráculos até o vestir, desde brinquedos até a especulação teológica. Depois de uma introdução substantiva, 13 capítulos se sucedem tratando da Grécia clássica ao Império Romano e até à Antiguidade Tardia. O livro ultrapassa as visões tradicionais da cultura popular associadas ao "pão e circo" e mostra, ao contrário, toda sua riqueza e diversidade.

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ESOPO

Em Fábulas, seguidas do Romance de Esopo, livro publicado pela Editora 34 (São Paulo, 2017, 280 páginas, 55 reais), André Malta e Adriane da Silva Duarte reúnem duas obras traduzidas do grego antigo: uma coletânea de 75 fábulas de Esopo e sua biografia romanceada. As fábulas nos remetem a uma moralidade popular que remonta à Grécia arcaica e clássica. Já o Romance de Esopo, escrito no século II d.C., sob o Império Romano, coloca em cena, numa narrativa divertida, um escravo de lavoura, promovido a escravo doméstico de um filósofo e que ganha a liberdade graças a sua astúcia e ao uso da palavra em público. Como poucos textos literários antigos, as Fábulas e o Romance de Esopo nos permitem vislumbrar algo das vozes, da vida e da cultura dos subalternos na Antiguidade.   

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CRISTIANISMO

Narrativa e cultura popular no Cristianismo primitivo (São Paulo, Paulus, 2018, 152 páginas, 29 reais), novo livro de Paulo Nogueira, convida o leitor a adentrar o universo dos primeiros cristãos por meio de um exercício de estranhamento, ao analisar suas formas de expressão literárias em seu contexto mais amplo. Partindo da hipótese de que o cristianismo primitivo tem conexões profundas com a cultura popular do Mediterrâneo antigo, o autor explora três níveis em que temas e modos de narrar populares são desenvolvidos nas narrativas conhecidas como Atos de PauloAtos de João e Atos de Filipe. Caminhando entre o folclore e a oralidade, o monstruoso e o grotesco, essas narrativas abrem portas para se pensar o cristianismo primitivo em seu contexto próprio e não apenas em função do seu futuro.

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PLAUTO

Em Slave Theatre in the Roman Republic: Plautus and Popular Comedy (Cambridge, Cambridge University Press, 2017, xvi+563 páginas, 37,99 dólares), Amy Richlin propõe uma reinterpretação radical do teatro atribuído a Plauto (século III a.C.) como um gênero escrito por e para escravos e pobres. Na primeira parte, a autora mostra como as peças jogam com as preocupações dessa audiência (como desenraizamento, castigos físicos, abuso sexual, fome e pobreza). Na segunda, cataloga as expressões teatrais das aspirações subalternas (como o desejo de vingança, honra, liberdade, manumissão e fuga). Controverso e provocador, o livro é uma contribuição significativa para os estudos sobre o teatro de Plauto e a cultura de escravos e homens livres pobres na República Romana.

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