Entrevista: Quando os senhores viram escravos

Atualizado: Set 14

Entrevista com Adriane da Silva Duarte, professora de Língua e Literatura Grega do departamento de Letras Clássicas de Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (DLCV-FFLCH/USP).

O que as histórias de amor das elites gregas sob o Império Romano podem nos revelar sobre a vida dos homens livres pobres e outros grupos subalternos na "ordem escravocrata"? É possível fazer uma História Antiga a partir de baixo utilizando obras literárias? Nesta entrevista, a professora Adriane Duarte nos apresenta um gênero narrativo pouco conhecido, o romance antigo, e discorre sobre as possibilidades que tais obras oferecem para o estudo dos grupos subalternos na Antiguidade. Para conhecer mais o seu trabalho, veja também a conferência apresentada na USP no dia 23 de abril de 2019 sobre "A representação de 'homens livres na ordem escravocrata': os romances de Cáriton e Xenofonte" no Canal Subalternos USP do YouTube


Você poderia falar em linhas gerais sobre o seu trabalho mais recente?

Os textos que eu trabalho são textos literários. É a primeira coisa que eu acho importante pontuar aqui. Na minha trajetória acadêmica, eu trabalho com uma variedade de textos, na verdade, todo o meu trabalho inicial é feito com o teatro. Teatro clássico, a comédia antiga, os textos do Aristófanes, se estendendo para a tragédia que é um tipo específico de obra literária, poética, centrada no período clássico, que tem uma grande resposta crítica. Ultimamente, eu tenho trabalhado mais com textos que fogem desse grupo de obras mais canônicas, com os romances antigos, que são textos ficcionais, textos em prosa e textos relativamente tardios tendo em vista a consolidação de um sistema literário na Grécia. São todos textos cujos primeiros exemplares têm registros a partir do primeiro século da era cristã e já no período de domínio político romano. Então, essas seriam as especificidades dele, justamente por isso, porque é um gênero, o romance, que surge tardiamente, quando você já tem um sistema literário consolidado, ele é, de certa forma, marginal em vista ao cânone tradicional da literatura grega. Isso também é importante na hora que a gente vai considerar esses textos. Agora, os textos em si, eles apresentam características diferentes. Você tem esse grupo de romances que está mais ligado a uma temática amorosa, romance do amor idealizado, como Quéreas & Calírroe, de Cáriton, e as Efesíacas, do Xenofonte, e você tem outros romances, que têm uma natureza mais cômico realista, como a Vida de Esopo, Lúcio ou o Asno, que dialogam mais de perto com a produção latina do romance.


Agora, em relação à tradução, de fato, é uma atividade à qual eu tenho me dedicado, eu gosto de me dedicar, no caso do romance, eu traduzi e publiquei o Romance de Esopo e tenho traduzido e, digamos assim, no prelo, os romances do Cáriton e do Xenofonte. Eu entendo a tradução de duas formas: num primeiro momento, é um exercício hermenêutico, você começa a se aproximar do texto, a estudar o texto a partir da sua tradução, o que te permite de fazer … claro, ler o texto em grego, é possível ler o texto em grego, mas a medida que você tem que responder as questões estéticas, as questões conceituais que o texto te coloca na sua língua, isso requer um grau de apropriação do texto que vai além de uma leitura, então eu acho que a tradução tem esse propósito de apropriar do texto e de subsidiar um estudo sobre o texto a partir de sua própria materialidade linguística. Um segundo aspecto da tradução é você poder proporcionar o acesso ao texto aqueles que não são aptos pra ler em grego, o que são muitos hoje em dia, são poucos os que podem ler em grego. E são poucos também, relativamente falando, os que podem ler em outra língua estrangeira para os quais esses textos foram traduzidos. Então, eu acho que é um processo que amplia o número de leitores e de interessados nas nossas disciplinas, que beneficia quem vá se apropriar desses textos, com qualquer que seja a intenção com que o faça, e que enriquece também o nosso próprio idioma, sempre que você exerce esse trabalho de tradução. Então, para mim, a tradução tem esse duplo propósito, o do estudo e o da difusão, acessibilidade.


O que os romances de Cáriton e Xenofonte podem nos dizer sobre a representação dos homens livres na ordem escravocrata?

primeiro momento, pareceria uma contradição sugerir, justamente, esses romances para tratar desse tópico porque os romances têm por protagonistas essas personagens que pertencem à elite das cidades, que são altamente idealizadas, então a gente não imaginaria esses personagens como exemplos para tratar dessas questões, das dificuldades que os homens livres, aqueles que não são senhores, aqueles que não são escravos, experimentam durante a sua existência. No entanto, uma particularidade desses romances é que esses protagonistas, de certa forma, eles são tirados de suas zonas de conforto. Um pressuposto desses romances é que, por um revés da sorte, os protagonistas vão ser afastados de sua cidade natal, vão ser afastados de suas famílias, vão ser afastados uns dos outros e vão ter que se submeter a uma vida errante e desprovida dos laços de solidariedade dos quais eles usufruíam quando cidadãos no seu meio de origem. É justamente essa vicissitude que é, por um lado, um tópico do enredo do romance, que faz com que o romance nos sirva como ponto de partida para refletir sobre essas questões. Esses personagens desgarrados, que não têm mais contatos, não têm mais vínculos, como é que eles vão conseguir resolver questões básicas a respeito da sua subsistência, da sua sobrevivência, com que tipos de pessoas eles vão conviver durante esse período de errância, sobretudo como é que eles vão responder a essa mudança radical de status que os afeta, eles que pertencem à e, muitas vezes, são rebaixados à condição de escravos ou de despossuídos e têm que lidar com essa questão. O romance está longe de ser, de apresentar, um tratamento realista dessas questões. Não é interesse do romance fazer isso, não é propósito do romance fazer isso, ao contrário, a visão é uma visão idealizada de uma determinada classe social, mas eles terminam por abordar questões que, mesmo que nas entrelinhas, nos permitem avaliar essa condição do homem livre nessa sociedade muito polarizada entre senhores e escravos. Nesse caso, o personagem Habrocomes, das Efesíacas de Xenofonte, é um caso interessante porque tendo ele saído da sua cidade, tendo ele sido raptado por piratas, vendido como escravo e recuperado a condição de homem livre, ele se vê diante da difícil situação de ter de prover o seu próprio sustento, ele que não conta com nenhum auxílio, nenhuma rede de solidariedade e não tem nenhuma formação específica em nada, então ele vai ter que submeter a tarefas e a funções muito diversas, desde se juntar a um grupo de bandoleiros para, dali, de alguma forma, obter seu sustento, até exercer profissões bastante modestas como de pescador ou de trabalhador numa pedreira para poder conquistar esse pão de cada dia, esse sustento de cada dia. Então, por aí que a gente vai percebendo essas relações dentro do romance, embora não seja o propósito inicial dele.


Nessas obras e em outros textos com os quais você trabalha, podemos ter acesso às vozes dos atores sociais silenciados?

aí, eu já acho que, desse ponto de vista, essas obras nos permitem, algumas dessas obras, sim, nos permitem acesso a esse ponto de vista dos atores silenciados, mas não, especificamente, esses romances. Nesses romances, você tem apenas breves menções da existência desses atores. Dois exemplos, no caso das Efesíacas, o momento em que o escravo Lêucon confronta o seu patrão, seu dono, o Habrócomes, que também está escravizado porque foi capturado pelos piratas e está aguardando para ser vendido, para ser negociado, e o trata como um igual e se dirige a ele com termos como “colega”, como “escravo”, e o Habrócomes toma isso como uma ofensa, “como ele se dirige a mim dessa maneira”. Então uma figura que era subalterna, num determinado momento, se permite tratar o seu dono como um igual, numa situação em que, de fato, eles estão igualados pela vicissitude. No caso do romance, é interessante porque esses escravos terminam sendo herdeiros dos novos donos e passam a ter uma condição social superior aos seus antigos donos e socorrendo-os no caso de adversidades. Esse é um caso. No outro caso, no Cáriton, no Quéreas & Calírroe, é quando, brevemente, se narra uma sublevação, um levante, de escravos que cumprem trabalhados forçados em condições bastante degradantes na Cária, e que eles se rebelam, assassinam o capataz e empreendem uma fuga. Eles são capturados e condenados à pela crucificação. Então, nessas cenas, você pode dizer que há essa visão, você pode acessar um pouco dessa tensão social e se dá, de certa forma, voz a grupos que, normalmente, não têm voz, mesmo no âmbito dos romances, porque são passagens muito pontuais. Mas outros romances, como o Romance de Eposo, por exemplo, o Vida de Esopo, traz o protagonista, que tem uma origem bastante humilde, que nasce escravo, é escravo, começa, inclusive, a sua trajetória como escravo da lavoura, que é uma posição bastante baixa, e vai ascendendo para a condição de escravo doméstico, depois, ele é liberto, torna-se conselheiro dos reis e assume outra condição, mas, durante grande parte da narrativa, ele é escravo e ele tem que se submeter a essas condições, mas com uma certa altivez. É o que nota, de princípio, o capataz da propriedade rural em que ele trabalha. Ele nasce mudo, mas a ele é concedido o dom da fala por uma intervenção miraculosa da deusa Ísis. E assim que ele consegue, que ele adquire o dom da fala, ele passa a contestar as ações do capataz. Ele observa o capataz castigando os outros escravos e ele, imediatamente, repreende o capataz dizendo “olha, você não está agindo com justiça, você não deve castigar assim os outros” e o capataz se espanta e fala “até ontem ele não falava, hoje ele começou a falar e já está me tratando desse jeito”, quer dizer, o temor dele é que ele provoque um levante, uma insubordinação, então imediatamente ele pensa em falar com o patrão, o que ele faz, para vender ou para matar, até mesmo, o Esopo, fazer qualquer coisa e sumir com ele dali. Então ele tem essa característica, insubordinação, a não resignação, é uma característica dele que ultrapassa a sua condição social, então, nesse sentido, ele vai, o tempo todo, comprovar, ou por à prova a tese, de que as habilidades intelectuais, a capacidade intelectual, ela não está relacionada a condição social, tanto que ele vai se tornar escravo de um filosofo renomado, na ilha de Samos, o filosofo Xanto, e inúmeras vezes, ele vai se provar mais capaz, mais sagaz, mais astucioso do que seu próprio mestre que é um filósofo. Então, eu acho que esse texto é um texto que dá voz, sim, às categorias que estão silenciadas, às classes que estão silenciadas na Antiguidade, que normalmente não são retratadas nas produções, nos documentos antigos.



Vídeo e entrevista: Nara Oliveira e Pedro Benedetti.

Edição: Nara Oliveira.

Transcrição: Jessica Brustolim.


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