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A plebe no funeral de César

Por Giovanni Pando Bueno


Frame da série televisiva Rome, da HBO (primeira temporada, episódio 12). Cena em que a multidão se reúne no Fórum e alimenta a pira que crema o corpo de César.


Os dias que se seguiram aos Idos de Março de 44 a.C. foram tensos. Os assassinos de Júlio César tiveram suas expectativas frustradas ao não serem recebidos como libertadores, mas alvos de desconfiança por parte do povo romano. Dois dias depois, em 17 de março, o Senado conseguiu negociar o exílio dos conspiradores com o principal representante da facção cesariana na capital, Marco Antônio, que em contrapartida exigiu, dentre outras demandas, a garantia de um funeral digno ao falecido ditador. Este foi então realizado, mas não como os herdeiros de César planejavam. Isso porque a multidão presente no Fórum decidiu agir, perseguindo os assassinos e tomando o corpo de César para cremá-lo por conta própria. A seguir, no mesmo lugar do Fórum em que se acendeu a pira, a plebe ergueu um pequeno monumento improvisado (um altar, talvez junto com uma coluna) sobre o qual oferendas eram cotidianamente concedidas. Tinha início em Roma um culto à figura de César.


As fontes textuais descrevem o clima amotinado despertado pela plebe naqueles dias. Plutarco diz que, ao ver o corpo desfigurado de César, “o povo já não mantinha disciplina nem ordem” (Vida de César, 68.1, tradução de Ísis Borges Belchior da Fonseca). Dio Cássio (História Romana, 44.35.4) aponta a imprudência de Marco Antônio ao alimentar a excitação dos presentes quando trouxe o corpo ao Fórum e proferiu um inflamado discurso. Já Apiano (Guerras Civis, 2.147) caracteriza um temperamento violento da turba que, irrompendo em lamentos, chegou até a incendiar a Cúria Pompeiana, casa senatorial onde ocorrera o assassinato. O culto popular também foi visto com desprezo pela aristocracia, que logo se mobilizou para miná-lo. Apiano (Guerras Civis, 3.3) conta que os cônsules executaram um dos líderes responsáveis pelo culto, um tal Amácio, provocando ira entre o povo que então reocupou o Fórum mais uma vez – em resposta, os soldados a mando de Antônio, um dos cônsules, prenderam e crucificaram os que eram escravos entre os insurgentes e arremessaram da Rocha Tarpeia os homens livres. O altar de culto também foi derrubado, ainda em abril de 44, por ordem do outro cônsul, Dolabela, o que deixou Cícero muito contente, como se pode perceber em uma de suas cartas a seu amigo Ático (14.15.2).


Como explicar a intervenção direta da plebe nas exéquias de César? Teria sido, segundo o tom dado pelas fontes, uma resposta enfurecida motivada pelas paixões acaloradas, uma reação disruptiva instigada pela escalada das emoções momentâneas? Quanto ao culto popular, por que incomodou tanto a classe dominante a ponto de a retaliação ter sido tão célere e dura? Compreender as motivações por trás das ações dos subalternos nem sempre é fácil, principalmente quando não nos é legado (e este é o caso aqui) nenhum testemunho direto que as explicite. Do mesmo modo, não podemos tomar como explicação última o juízo negativo ao tratar das massas que transparece nas palavras de Plutarco, Dio Cássio, Apiano ou Cícero, autores que falam a partir de uma perspectiva aristocrática. Como, então, proceder?


No campo dos estudos subalternos, um caminho frutífero tem sido trilhado por historiadores e antropólogos que resgatam a obra de Antonio Gramsci e seu conceito de hegemonia para estudar as revoltas camponesas da Ásia Meridional no contexto pós-colonial (nomes como Ranajit Guha e James Scott merecem menção). Claro, os recortes são díspares e demandam análises históricas específicas, mas aos dois casos as reflexões gramscianas fornecem ferramentas interpretativas que elucidam as relações simbólicas entre as classes dentro de uma estrutura de dominação ideológica. Com isso, permitem que nos atentemos às dinâmicas subalternas de recepção e apropriação da ideologia hegemônica, seja em uma vila indiana na segunda metade do século XX, seja na plebe de Roma do século I a.C.


Ao lançar essa luz teórica sobre a sociedade romana, observamos que, por séculos, as camadas subalternas foram educadas dentro de um discurso hegemônico que não deixava dúvidas quanto à existência de uma bem demarcada hierarquia social. Os plebeus urbanos, embora tratados pela classe dominante como soberanos e convidados a mediar a competição dos aristocratas em eleições, não podiam se candidatar, exercer magistraturas nem tomar a palavra em locais públicos. A aristocracia, por seu turno, tinha acesso a tais espaços e sublinhava sua condição hegemônica publicamente por meio de um rico código simbólico. O direito exclusivo à realização de funerais públicos, geralmente transcorridos no Fórum com grande pompa, bem como à perpetuação da memória em monumentos da cidade, fazia parte desse mecanismo de distinção social da classe dominante de Roma.


A plebe respeitava a autoridade da aristocracia nesses termos e com isso reproduzia a ideologia hegemônica. No entanto, com a crise política no final do século II a.C. e o início das guerras civis que opuseram membros da mesma classe dominante, tal ideologia cairia em contradição interna. Isso porque os vencedores tendiam a negar aos derrotados os direitos que possuíam segundo a condição hegemônica. Os dois irmãos Graco, Caio e Tibério, por exemplo, embora fossem aristocratas, foram privados de funerais e tiveram seus corpos arremessados nas águas do Tibre – como narra Valério Máximo (Feitos e Ditos Memoráveis, 1.4.2, 6.3.1d). A condenação da memória (damnatio memoriae) também foi aplicada pelo Senado, tentando promover o esquecimento dos vencidos. Proibia-se a família de viver o luto, demolia-se a casa do condenado, bania-se suas imagens e seu nome de Roma. Tais punições recaíram principalmente sobre aqueles políticos que se proclamavam populares e defendiam reformas que poderiam beneficiar a plebe.


César, assim como os Graco outrora, portava essa bandeira. Ao ser assassinado, sobravam razões à plebe para desconfiar das promessas senatoriais dadas a Antônio de que um funeral ocorreria, dado o vasto histórico de perseguições. Ao cremá-lo, assegurando a realização das exéquias, a plebe agia dentro da legitimidade que aprendeu com o discurso dominante. Em sua perspectiva, seus atos não eram disruptivos, pois não questionavam a hierarquia social. Ao contrário, a reconhecia, afinal estava em última instância garantindo a um aristocrata seus direitos enquanto tal. Da mesma forma, ao conceder-lhe um altar no Fórum, a plebe protegia a memória do ditador contra sanções senatoriais, fazendo com que fosse publicamente lembrado como os demais membros de sua classe. Ao mesmo tempo, ela preservava para si o controle sobre a memória de César, podendo dar-lhe postumamente contornos ainda mais populares. Enfim, a plebe defendia seus próprios interesses ao defender César, amparada no senso de justiça ditado pela própria ideologia hegemônica.


Este caso exemplifica como as camadas subalternas agem criativamente sobre o discurso dominante. Não deixando se apassivar por ela, os de baixo são capazes de se armar com elementos da ideologia hegemônica para reclamar aquilo que lhes interessa.


Restos do altar que Otávio teve de reerguer em 29 a.C. emulando o primeiro, derrubado por Dolabela, no interior da êxedra do Templo do Divino Júlio. (Imagem do autor, 2022).

Tags: #Roma #plebe #César #memória #hegemonia #multidões

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