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Como a plebe romana protestava?

Por Jonathan Cruz Moreira



Manifestação contra o projeto de reforma das aposentadorias do governo Macron. Paris, fevereiro de 2023. Foto: Paola Breizh. Licença: CC BY 2.0.


O mês de março de 2023 na França foi agitado. Desde o fim de fevereiro têm se alastrado pelo país um movimento de protesto que envolve greves gerais de serviços, ocupação de espaços públicos, incêndios de automóveis, barricadas e confrontos com a polícia. O principal alvo é o presidente Emmanuel Macron e sua proposta de reforma do sistema previdenciário do país.


Muitas das táticas adotadas permitem lembrar outros períodos de descontentamento popular na França, como em Maio de 1968 ou durante a Comuna de Paris em 1871. As palavras de ordem, as barricadas, os incêndios e as greves coordenadas estão lá novamente. Alguns estudiosos, como Charles Tilly, compreendem a recorrência de formas de protesto como um repertório, um conjunto de opções das quais uma população lança mão de acordo com as circunstâncias, e que são reunidos em uma longa experiência de enfrentamento. O sociólogo Mark Traugott, chama a atenção para a longevidade das barricadas francesas, por exemplo, que já eram construídas em ações coletivas na Revolução Francesa no século XVIII, passando pelo século seguinte, até 1968 e são vistas, novamente, na Paris de 2023.


Quando pensamos em momentos turbulentos na Antiguidade, especialmente na Roma do último século da República, o que vem à mente são as guerras internas e externas, os embates políticos e a concentração de poder na mão de generais que, inevitavelmente, colidiriam dando origem ao governo de um só homem, o Principado, em 27 a.C. Por outro lado, o período também foi de intenso descontentamento popular, que se expressava em protestos violentos e não violentos.


Os motivos para a mobilização eram variados. Alguns eram políticos, como a distribuição dos libertos nas unidades de votação (tribos urbanas e rurais). Outros, econômicos, como o valor dos aluguéis e principalmente a flutuação do preço dos alimentos, sobretudo o trigo, que se tornava mais caro como consequência de guerras, ação da pirataria nas rotas de transporte e, é claro, interesse econômico de especuladores. O historiador Cyril Courrier estima, que a proporção do orçamento familiar para despesas básicas de alimentação, sem quaisquer subsídios, podia chegar a mais de 82%.


O repertório também era diverso. Alguns elementos eram menos violentos, como boatos e rumores. Havia também, clamores, protestos e vaias (flagitatio) acompanhados de gestos ameaçadores, seja diante da casa de magistrados seja nas assembleias públicas. Em 67 a.C., quando a pressão dos piratas aumentava os preços no mercado e uma assembleia foi convocada para discutir um mandato especial a Pompeu para lidar com o problema, a reação da plebe foi tão violenta diante da resistência de alguns senadores, que seus clamores enfurecidos teriam feito um corvo cair morto dos céus (Plut. Pomp. 25.5; Cass. Dio. 36.6). Outros eram mais violentos. O apedrejamento (lapidatio) há muito fazia parte do imaginário popular como punição militar e, não raro, era acompanhado de ameaças de incêndio. Tanto pessoas quanto casas podiam ser alvo das pedras. Mesmo os cônsules ou os senadores mais importantes de meados do séc. I a.C., como Catão, o Jovem ou Cícero não escaparam (Plut. Cat. Min. 28.2; Cic. Att. 4.3.3).


As rotinas que compunham esse repertório, embora independentes, articulavam-se de acordo com a necessidade. Os protestos de 57 a.C. são um exemplo disso. Em setembro daquele ano, o preço do trigo subia de forma alarmante e coincidia com a volta a Roma de Marco Túlio Cícero, em exílio desde 58 a.C. Cícero não era dos maiores aliados de leis ditas populares e uma conexão foi imediatamente estabelecida entre a alta dos preços e seu retorno, o que foi explorado por seus adversários, fazendo correr entre a plebe o boato de que era ele o causador desse aumento de preços (Cass. Dio., 39, 9, 2-3; Cic., Att., 4, 1, 6).


Diante dos boatos, artesãos, lojistas e pobres de modo geral a quem Cícero chamava de um “exército de perdidos,” foram à noite às portas de sua casa exigir a queda dos preços (Cic. Dom. 3; 13-14; Cic., Att., 4, 1, 6). Como a situação se agravava, os senadores então reuniram-se na manhã seguinte. Segundo o historiador Dião Cássio, a plebe teria desbaratado jogos dos Ludi Romani que ocorriam em um teatro temporário próximo e então: “seguido ao templo da Concórdia onde os senadores se reuniam ameaçando, primeiro, matá-los com suas próprias mãos, depois, queimá-los vivos, templo e tudo (Cass. Dio., 39, 9, 2-3)”. O prédio foi apedrejado, atingindo um dos cônsules (Cic., Dom., 3; 13). A situação só se acalmaria no dia seguinte, quando um mandato especial foi concedido a Pompeu para que administrasse a rede de suprimentos da cidade, medida que era bem vista pela população, que confiava em Pompeu para resolver o problema (Cic., Dom.,18).


Cícero acusava seu principal oponente político, Públio Clódio, de ter participado no todo ou em parte da mobilização. O próprio orador, porém, em um discurso naquele mesmo 57 a.C., diria que as causas podem ter sido dificuldades nas colheitas em províncias produtoras de grãos, além da ação deliberada de mercadores estrangeiros, o que enfureceu a população e resultou nos episódios de violência (Cic., Dom., 11).


Um repertório de ação coletiva muda lentamente e parece óbvio e natural aos envolvidos. Assemelha-se a uma linguagem elementar e familiar como o dia para seus usuários. Assim como os franceses, década após década, parecem constituir uma linguagem própria de protesto, os plebeus do final da República constituíam o seu: vaias, clamores, insultos, pedras e eventualmente fogo faziam parte desse repertório que comunicava de maneira clara o descontentamento sobre as ações dos magistrados. Alguns desses elementos parecem surpreendentemente familiares, talvez porque ontem e hoje às vezes as vozes dos subalternos só são ouvidas quando se tornam ameaças, seja numa barricada em Paris, seja em uma assembleia na Roma antiga.


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