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Pensando e definindo a pobreza no antigo Egito

Por Delphine Driaux, FWF Elise Richter Fellow na Universidade de Viena


Vivemos hoje em um mundo em que as desigualdades sociais são cada vez mais visíveis e no qual há cada vez mais pessoas pobres, particularmente como resultado de crises econômicas, das consequências das alterações climáticas, de guerras e outros conflitos, pandemias, etc. De acordo com as Nações Unidas, atualmente quase metade da população mundial vive na pobreza – sendo essa pobreza medida em termos de um salário de não mais do que 1,90 dólares por dia (reavaliado em 2022 para 2,15 dólares devido a alterações nos preços nos países de baixos rendimentos em relação ao resto do mundo). Esse limiar, contudo, não fornece uma imagem exata da pobreza no mundo. Duas outras linhas de pobreza, portanto, foram estabelecidas para melhor refletir a taxa de pobreza nos países em desenvolvimento: 3,65 dólares por dia e 6,85 dólares por dia. No entanto, entre as pessoas que vivem na pobreza, as Nações Unidas afirmam que mais de 800 milhões vivem em pobreza extrema, com menos de 1,25 dólares por dia. Para além da observação, há aqui uma série de pontos a ter em conta: em primeiro lugar, existem diferentes graus de pobreza – sendo a pobreza extrema (também conhecida como “pobreza absoluta”) a fase final; em segundo lugar, essa pobreza é mesurável. Esta é quantificada utilizando a linha de pobreza internacional (LIP), atualizada pelo Banco Mundial. Nesse caso específico, a pobreza é definida como a ausência de recursos suficientes para garantir as necessidades básicas de vida. Quando falamos de pobreza, normalmente é essa definição que vem imediatamente à mente. No entanto, a pobreza não é caracterizada apenas pela insegurança financeira. Como explica Esther Duflo (vencedora do Prêmio Nobel da Economia 2019): “a pobreza é feita de múltiplos ângulos”. Ela não é apenas carência de dinheiro, mas também carência de educação, carência de saúde, carência de informação, carência de inclusão política e de conscientização, etc. Consequentemente, não existe uma definição única de pobreza, uma vez que a pobreza é multidimensional.


Com esses fatos em mente, olhemos agora para o passado e, mais especificamente, para a Antiguidade. Alguns historiadores consideram que a pobreza estrutural em massa (ou seja, a pobreza devido à própria estrutura da sociedade) tem sido o estado natural da maior parte da população em todas as sociedades pré-modernas. É certamente razoável supor que o mesmo acontecia no antigo Egito. Contudo, é difícil afirmar isso com certeza. Afinal, ainda sabemos muito pouco sobre os pobres do antigo Egito. Arqueólogos e historiadores provavelmente têm alguma responsabilidade nisso. O tema dos seus estudos é muitas vezes escolhido com base nos dados disponíveis, que geralmente consistem em artefatos e monumentos bem preservados pertencentes, na sua maioria, aos mais abastados. Os estudos sobre a sociedade egípcia, portanto, são necessariamente tendenciosos, uma vez que se baseiam numa pequena proporção da população. Além disso, existe o problema da definição de pobreza – que não é fácil de estabelecer. Em uma civilização como o Egito faraônico, na qual o dinheiro era desconhecido e as moedas não foram amplamente utilizadas até a conquista de Alexandre, o Grande, é impossível utilizar uma ferramenta como a linha da pobreza. Para as sociedades antigas, quando se trata de estudar a pobreza, os historiadores geralmente preferem usar o conceito de “pobreza relativa”. Isso lhes permite avaliar o lugar de um indivíduo por meio de comparação dentro de uma sociedade. Essa abordagem envolve comparações entre diferentes grupos sociais e destaca as diferenças de padrões de vida. Assim, para identificar e saber quem eram os pobres no Egito antigo, precisamos primeiro saber quem eram os ricos. Contudo, a pobreza não pode ser vista apenas como um antônimo de riqueza. Tal como no mundo de hoje, a pobreza no Egito antigo não pode ser simplesmente definida pela falta de recursos “financeiros”. Ela era um fenômeno mais complexo, que não parece tão distante da pobreza tal como é concebida hoje por economistas como Esther Duflo.


Fig. 1. Detalhe de uma cena na tumba de Wekhhotep I em Meir representando um pastor (foto D. Driaux)

Portanto, o que significava ser pobre no Egito antigo? A pesquisa que estou realizando atualmente visa responder a essa questão complexa. Entretanto, a complexidade também reside no fato de os pobres não terem deixado vestígios significativos no registo histórico. Apesar disso, ao pesquisar cuidadosamente, verifica-se que os textos e imagens que chegaram até nós nos dão um vislumbre das múltiplas dimensões da pobreza. Em primeiro lugar, existe, claro, a falta de recursos básicos, tal como o camponês cuja casa está vazia de bens. Mas, ser pobre também significa ter fome. Vários textos mencionam pessoas que não tinham o suficiente para comer, enquanto algumas cenas em tumbas retratam pessoas extremamente magras com costelas visíveis (fig. 1). A pobreza também é expressa por uma aparência física negligenciada – em contraste com as pessoas ricas que cuidam de si mesmas e são sempre retratadas nos seus melhores trajes. Vários textos descrevem pessoas vestidas com trapos (às vezes também são vistas em algumas representações) ou sem cabelo – em outras palavras, sem peruca. Ser pobre também significa ter pouca ou nenhuma educação e exercer um ofício não qualificado ou indigno, como lavar roupa. Finalmente, a Arqueologia nos mostra que ser pobre também significa não ter acesso ou ter acesso limitado a certas instalações básicas.


Pode-se argumentar que os textos e imagens que retratam a pobreza foram produzidos pelas elites, para benefício das elites. Claramente, estes são meios de comunicação que transmitem os valores dos membros mais privilegiados da sociedade. Mas esses valores são na verdade a norma, que constitui a base da sociedade egípcia. Como resultado, as pessoas que não seguem a norma acabam inevitavelmente por ficar socialmente mais pobres. O fato é que as descrições dos pobres são muitas vezes subjetivas e, por vezes, caricaturais (para não dizer estigmatizantes). É importante, portanto, mantermos um olhar crítico sobre essas fontes, por mais que o que elas nos dizem deva basear-se, até certo ponto, em observações verdadeiras. O vocabulário utilizado nos textos também é muito esclarecedor. Existe um campo lexical da pobreza, que ainda deveria ser estudado a fundo, mas que já mostra que existem diferentes graus de pobreza, com os indivíduos vivenciando diferentes condições de vida. Há aqueles que caem na pobreza, aqueles que vivem com recursos básicos, aqueles que mendigam, e assim por diante. Portanto, os pobres no Egito antigo não eram um grupo social distinto e homogêneo.


Os múltiplos ângulos da pobreza, para usar as palavras de Esther Duflo, não são apenas uma prerrogativa da nossa sociedade moderna; eles são claramente visíveis nas sociedades antigas em geral e no Egito antigo em particular. É precisamente isso que torna o estudo da pobreza tão difícil. Contudo, uma vez feita esta observação, um longo trabalho de investigação deve começar a ser feito a fim de recolher evidências diretas e indiretas das condições de vida, comportamento e práticas dos grupos sociais mais modestos. Uma vez processados e analisados esses dados, será então possível detalhar as muitas formas e diferentes realidades da pobreza no Egito faraônico e, finalmente, lançar luz sobre indivíduos que permaneceram invisíveis durante muito tempo na história do Egito antigo, mas também na Egiptologia.


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