História de pescador

Atualizado: 4 de Ago de 2019

Por Márcio Monteneri, mestre em História pela Universidade de São Paulo.


Na Antiguidade romana, os trabalhadores ligados à pesca e ao comércio de peixes eram menosprezados por diversos autores. No século III a.C., o dramaturgo Tito Mácio Plauto (Rud. 311-312) satirizava a condição social dos pescadores. Em uma comédia, representou esses profissionais como “famintos e sedentos” e como uma “ninhada de seres esfomeados”. No final da República, Marco Túlio Cícero comentava que a condição de trabalho de pescadores e peixeiros era degradante, uma vez que essas profissões mexiam com os sentidos. Em suas palavras, em De Officiis: "As atividades de menos valor são aquelas que se relacionam com os prazeres sensuais: 'peixeiros, açougueiros, cozinheiros, vendedores de galinhas e pescadores', como diz Terêncio" (De Officiis, 1, 150). Para Cícero, aparentemente era pouco digno manipular o peixe e conviver com seu odor desagradável. No século II de nossa era, o historiador e erudito Lúcio Méstrio Plutarco considerava mais conveniente comprar um peixe que capturá-lo, uma vez que a pesca envolvia truques e armadilhas ardilosas. Para esse autor, em outras palavras, pescar era coisa de trapaceiro. A partir desses textos, de épocas e gêneros diferentes, temos uma ideia de como os indivíduos que lidavam com o peixe em suas profissões eram marginalizados pelos autores clássicos. Ao abordar outros tipos de evidências, no entanto, nos deparamos com uma história um pouco diferente.


Mosaico com cena de pesca datado do século III d.C. procedente de Adrumeto (atual Sousse, Tunísia). Musée Archéologique de Sousse. Fonte: Wikimedia Commons

Os dados epigráficos, por exemplo, sugerem que os pescadores, unidos em associações (collegia), tinham condições de financiar espetáculos e a construção de monumentos, e participavam da vida política de certas comunidades. Em Roma, em nome dos pescadores do Tibre, celebrava-se anualmente os chamados “Jogos dos Pescadores” (Ovídio, Fasti 6.237). No Norte da Itália, um outro grupo desses trabalhadores custeou a edificação de um monumento dedicado a Netuno (CIL V 7850). Em Pompeia, uma terceira associação parece ter conferido apoio decisivo a um candidato às eleições locais (CIL IV 826). Apesar de desdenhados pelos autores das fontes textuais, portanto, os membros das associações de pescadores eram importantes e ativos dentro de algumas cidades.


As ruínas arqueológicas, por sua vez, revelam o impacto econômico da indústria pesqueira em antigos centros urbanos. É o caso de Sabrata, cidade costeira da Tripolitânia. Lá, os arqueólogos descobriram uma série de estabelecimentos repletos de tonéis, possivelmente destinados à produção de salga de peixe e de outros produtos derivados como o garo (garum), molho apimentado feito de tripas apodrecidas. Entre o final do século I d.C e o início do século II d.C., parte considerável da área central de Sabrata foi ocupada por estabelecimentos onde ocorriam atividades ligadas ao peixe. Ao que tudo indica, esses trabalhos eram uma importante fonte de renda para as pessoas da comunidade. De acordo com o arqueólogo Andrew Wilson, produzia-se tanto para consumo local quanto para exportação, o que deve ter contribuído para o desenvolvimento econômico de Sabrata. Os peixeiros, entretanto, não eram os que mais lucravam com essas atividades. As elites negavam seu envolvimento com esse tipo de comércio, mas ganhavam dinheiro alugando os estabelecimentos para os trabalhadores. As doações e investimentos que os poderosos faziam em prol das cidades não provinham apenas dos lucros que extraíam de suas terras, mas também dos ganhos obtidos por meio do comércio. Os aristocratas, portanto, buscavam se distanciar publicamente das atividades que rotulavam como indignas mas, ao mesmo tempo, extraíam parte de seu lucro delas.


No início do século III d.C., o centro de Óstia, cidade portuária vizinha de Roma, era ocupado por, pelo menos, três peixarias que funcionavam nas imediações do fórum. Nesses estabelecimentos, os arqueólogos encontraram mosaicos com emblemas marítimos e tanques revestidos a mármore onde possivelmente ficavam os peixes à venda. Uma dessas peixarias, a chamada Taberne dei Pescivendoli, foi instalada no Decumanus Maximus, uma das principais avenidas da cidade. Além disso, encontrava-se em um dos cruzamentos mais movimentados de Óstia, o Bivio del Castrum.


A presença dessas atividades em pleno centro, tanto de Sabrata quanto de Óstia, deve ter conferido um caráter particular à vida nessas cidades. Esses centros urbanos, ao que parece, possuíam características um pouco diferentes da visão romantizada geralmente atribuída às cidades romanas. Relatos como o de Cícero, por exemplo, podem nos induzir a imaginar as cidades antigas como lugares quase que paradisíacos. O caso de Sabrata e Óstia, no entanto, sugere que mesmo a indústria pesqueira, da qual emanavam cheiros desagradáveis, era parte integrante da vida urbana.


Pescadores e peixeiros, como vimos, eram trabalhadores importantes dentro da antiga sociedade romana. A história contada pelos aristocratas, que em geral são os autores das fontes textuais, até parece uma história de pescador.


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