Quem sustentava os espartanos?
- Gabriel C. Bernardo

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Por Gabriel Cabral Bernardo

Da escola ao cinema, os espartanos são geralmente retratados como “guerreiros profissionais”, quase lendários (Fig. 1). Essa ideia carrega vários problemas, e um dos principais é que quase nunca se destaca que, sustentando esses guerreiros e a hegemonia de Esparta entre meados do século VI e o início do século IV a.C., havia um grupo enorme de pessoas – um muito mais numeroso que os próprios espartanos. Esse grupo incluía várias categorias sociais, sendo provavelmente a dos hilotas a mais numerosa entre elas.
Xenofonte, no começo do século IV a.C., afirma que os espartanos eram proibidos “de ter qualquer envolvimento com atividades lucrativas, considerando como sua única preocupação as atividades que contribuem para a liberdade da cidade” (Constituição dos Lacedemônios 7.2). Há alguns significados possíveis para “atividades lucrativas”, mas o consenso é que os espartanos não podiam (ou pelo menos não deviam) se envolver com comércio, artesanato ou qualquer trabalho considerado indigno a um cidadão livre. Assim, o grosso do trabalho produtivo recaía sobre outros, especialmente sobre os hilotas.
Os hilotas eram pessoas escravizadas, possuídas privadamente pelos espartanos, ainda que sob um regime de regras especiais – como a proibição de libertação sem autorização oficial e de venda para fora das fronteiras espartanas (o que não os faz “servos do Estado”, como são comumente caracterizados). Aos hilotas eram atribuídas várias funções, incluindo a participação no exército espartano. Heródoto (9.28.2) afirma que, na Batalha de Plateia (a vitória decisiva contra os persas em 479 a.C.), o exército de Esparta era composto por 5.000 espartanos e 35.000 hilotas – que fizeram fortuna com o saque dos corpos persas. Ou seja, havia sete vezes mais hilotas (que tinham interesses próprios) do que espartanos, isso na maior vitória da história de Esparta.
Apesar desse fato pouco lembrado, a principal atividade hilota era, sem dúvida, o cultivo das propriedades espartanas. Parte do produto de seu trabalho era entregue aos senhores, enquanto que o restante ficava com os próprios hilotas. As proporções exatas são desconhecidas, sendo os versos de Tirteu (poeta espartano do século VII a.C.) os únicos que dizem algo sobre isso. Segundo o poeta, os hilotas “Como burros oprimidos por grandes cargas, levando aos senhores, sob triste necessidade, metade de todo o fruto que a terra produz” (fragmento 6 West, tradução de R. Brunhara, com pequenas alterações). Esses versos, além de pintar os hilotas como peças pacíficas dentro de um mecanismo de exploração brutal, descrevem apenas parte do quadro. Quando analisado de outro ponto de vista, esse sistema permite compor uma imagem diferente, com bastante espaço para a resistência.
O próprio arranjo do sistema de exploração hilota, com os senhores residindo em Esparta (onde realizariam as “atividades que contribuem para a liberdade da cidade”) e os hilotas vivendo nas propriedades rurais, configurava um regime de trabalho geralmente chamado de “absenteísta”, no qual os proprietários estão ausentes das propriedades e, portanto, exercem menor controle direto sobre o trabalho de seus subordinados. Em tais regimes, desde que os escravizados entreguem, ao final de determinado período, uma quantidade pré-estabelecida de produção, eles costumam ter maior (mas não total) liberdade para administrar seu tempo e rendimentos – podendo até adquirir ou manter bens próprios. Isso parece ter sido o caso dos hilotas, como fica claro no caso da Batalha de Esfactéria em 425 a.C., quando, de acordo com Tucídides (4.26.7), alguns hilotas usaram seus próprios barcos para ajudar espartanos sitiados em uma ilha na costa da Messênia (Fig. 2) – não sem antes avaliar suas embarcações, o que implica algum tipo de ressarcimento caso as embarcações fossem danificadas ou capturadas. É claro que o uso que os hilotas podiam fazer de seus bens era, em muitos sentidos, limitado. Há apenas um episódio conhecido, em 223 a.C., no qual hilotas puderam empregar seu próprio dinheiro para comprar a liberdade (Plutarco Vida de Cleômenes 23.1). Ainda assim, isso mostra que os hilotas podiam trabalhar também em proveito próprio, e não apenas em benefício dos espartanos.

Outras possibilidades eram abertas por sistemas de exploração absenteístas. No caso dos hilotas, já se argumentou que a distância entre Esparta e os lotes espartanos permitiu a organização de comunidades hilotas. Essa hipótese é baseada na preservação do termo “mnoinomoi” no léxico de Hesíquio (gramático da Alexandria do século V-VI d.C.). A definição do termo é “líderes dos hilotas”, mas ele pode ser traduzido mais literalmente como “diretores das mnoia”. Acredita-se que esses diretores seriam hilotas servindo como uma espécie de “líderes comunitários”, representantes de agrupamentos de hilotas que trabalhavam suas respectivas mnoia – um termo comum para se referir a “porções” de terra, ou simplesmente lotes privados. É possível que os mnoionomoi tivessem algum papel na manutenção da exploração espartana (assegurando os interesses de seus senhores em troca de privilégios, por exemplo), mas a mera existência de comunidades hilotas tornava possível o estabelecimento de laços que extrapolavam a condição da escravidão e que, por isso mesmo, permitiam a manutenção de vários mecanismos de resistência. Um deles seria a preservação de histórias sobre o passado livre de comunidades hilotizadas – como as histórias de Aristômenes, rei messênio e líder da Segunda Revolta Messênia contra Esparta. Parte dos historiadores acredita que história como essas foram passadas oralmente por séculos, assumindo uma forma final após a libertação dos hilotas messênios em 369 a.C. Outro mecanismo de resistência observável é a criação de laços com outras comunidades submetidas aos espartanos, como a dos periecos (indivíduos livres que viviam nas cidades vizinhas de Esparta), com quem provavelmente compartilhavam experiências de submissão. Esse parece ser o caso em 465 a.C., quando hilotas messênios revoltados conta com o auxílio de duas cidades periecas da Messênia, Túria e Etéa.
Um olhar mais atento sobre os hilotas permite, portanto, vê-los como muito mais do que os “burros oprimidos” que alimentavam os espartanos. Por mais que estivessem submetidos a um regime escravista por vezes cruel, pontilhado com humilhações (Fig. 3), os hilotas ainda conseguiam agir (e guerrear) em benefício próprio e de suas comunidades, aproveitar a reduzida autonomia que possuíam para melhorar sua condição e, quando possível, rebelar-se abertamente contra ela.



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