Uma outra Roma é possível?

Por Carlos Machado, University of Saint Andrews (Escócia)


Por séculos, a monumentalidade e a imponência da cidade de Roma capturaram a imaginação de visitantes, entusiastas e do público em geral. As reconstruções que vemos em filmes e minisséries de TV dos grandes monumentos imperiais reforçam, no imaginário de suas audiências, a ideia de que a capital do império romano foi uma cidade construída pelas e para as elites, sendo as mulheres e os homens comuns meros espectadores. Essa visão também dominou os enfoques e interesses de historiadores e arqueólogos: as classes trabalhadoras, os pobres, os desamparados, nunca deixaram de figurar nesses trabalhos (em alguns casos em análises influentes). Mas foram tratados como um dado extra, sintoma das contradições da sociedade imperial ou, na melhor das hipóteses, meros usuários e frequentadores dos espaços construídos por senadores, imperadores, ou generais triunfantes.


Novas perspectivas vêm se desenvolvendo nos últimos anos, seguindo trabalhos inovadores feitos em outras regiões do império e se beneficiando do desenvolvimento relativamente recente de técnicas mais apuradas de escavação de centros urbanos. Durante toda a década de 1980, a escavação do complexo construído por Cornélio Balbo no Campo de Marte meridional em 13 a.C. permitiu a arqueólogos examinar a estratigrafia de séculos de história e uso continuados, da inauguração do monumento em seu esplendor augustano até sua conversão em área produtiva nos últimos séculos da antiguidade, incluindo o desenvolvimento de um edifício de apartamentos na vizinhança imediata. O cotidiano e o subalterno andam lado a lado, acompanhando o monumental e o extraordinário, é o que sugere esse complexo.


A Crypta Balbi (como o teatro e o criptopórtico anexo são conhecidos) mostram que, para entendermos a cidade de Roma como o produto de sua história concreta, é preciso ir além dos grandes projetos construtivos e considerar as formas de uso ali desenvolvidas e como estes redefinem a cidade e seus espaços. Essa não é uma empreitada desprovida de dificuldades: enormes áreas da cidade foram escavadas sem maior preocupação por qualquer aspecto que não fosse sua grandiosidade (mesmo quando métodos estratigráficos já eram aplicados em outros lugares). Os fora imperiais, por exemplo, foram escavados e estudados nos anos do regime fascista, mas foi apenas nas campanhas de expansão da área escavada, nos anos 2000, que pela primeira vez se teve alguma ideia da estratigrafia – e consequentemente das formas de uso – dessa área. Ainda assim, é possível identificar o papel exercido por grupos além da elite na construção do espaço urbano, fazendo uso das fontes disponíveis para desenvolver uma nova imagem de Roma, mais concreta e mais complexa. A zona do Campo de Marte, especificamente, é uma área ideal para isso.


Mapa do Campo de Marte, de Mary Tagliaferro Boatwright. Fonte: Hadrian and the City of Rome.

O vasto vale entre as muralhas da Roma Republicana e a curva do rio Tibre tiveram um uso muito diverso por toda a Antiguidade. A zona ao sul do Campo, mais próxima ao Capitólio, foi desde cedo usada para diversas finalidades cívico-religiosas, com a instalação do Circo Flamínio, onde as tropas se reuniam à espera de sua entrada triunfal na cidade, o Templo de Belona, parte do ritual de declaração de guerra, e as Saepta, onde eleições eram organizadas anualmente. Mais ao Norte, entre a via Flamínia e o rio, túmulos monumentais, vilas suburbanas e bosques dominavam a paisagem. Isso explica em parte porque o imperador Augusto escolheu essa área para construir seu magnífico Mausoléu e seu relógio solar. Nosso conhecimento vem especialmente de textos escritos pela elite, combinados com os vestígios de grandes edifícios imperiais, e é tentador acreditar que monumentalidade e lazer dominavam a área. No entanto, uma referência nos Anais de Tácito (3.9) nos alerta para outra imagem: quando Pisão retornou a Roma para seu julgamento, após a morte de Germânico, ancorou seu navio na área das Ciconiae, perto do Mausoléu de Augusto, causando grande confusão. O motivo para isso é que ali ficava um importante porto fluvial, onde mercadorias trazidas do Norte da Itália pelo Tibre eram desembarcadas, medidas, vendidas, e estocadas. Uma área de grande concentração de marinheiros, trabalhadores e comerciantes, portanto, e não um parque monumental.


A transformação dessa zona continuou durante todo o período imperial. Apesar de ainda muito pouco escavado, o Campo de Marte é famoso pela grande quantidade de insulae (edifícios de apartamentos), pórticos e tabernae construídos nos primeiros séculos do império. O investimento monumental de imperadores não foi feito à exclusão de formas de uso mais populares, mas em conjunto com estas. Isso é demonstrado por uma inscrição fascinante, do início do século III d.C. – na verdade duas inscrições (CIL VI, 1585a-b), uma copiando uma carta enviada pelo liberto imperial Adrasto e a outra com a resposta do imperador e as ordens enviadas aos administradores responsáveis. Adrasto era (com sua família) encarregado de cuidar da coluna de Marco Aurélio, uma grande coluna decorada com relevos representando as campanhas militares do imperador morto em 180 d.C. Em sua carta, ele pediu autorização para construir, com seus próprios recursos, uma moradia próxima ao monumento. A resposta imperial não apenas lhe deu permissão como ainda o instruiu a utilizar materiais de construção que poderia achar nos “casebres” (tuguria) que ocupavam a área. O uso do termo “tugurium”, normalmente associado a moradias pobres de camponeses, nos alerta para a presença de grupos que não podiam pagar o aluguel de um apartamento em uma insula. O fato de que estes prédios podiam ser usados como fonte de material construtivo é ainda mais instigante: tratam-se de construções ao menos em partes feitas de materiais sólidos, reaproveitáveis; talvez tijolos ou telhas.



Coluna de Marco Aurélio. Foto do autor.

Esse uso “intensivo” do Campo de Marte continuou durante os séculos posteriores, especialmente na Antiguidade Tardia. Isso é indicado em uma lei, parte de uma constituição mais longa, endereçada pelos imperadores Arcádio e Honório ao povo de Roma, em 397 (Código Teodosiano, 14.14.1). Nela, o povo é informado de que qualquer um que tentasse construir uma “casa ou casebre/barraca” (casas seu tuguria) naquela área teria todos os seus bens confiscados e seria expulso da cidade de Roma. A lei coloca uma série de questões que não temos espaço para discutir aqui, mas vale lembrar que foi nessa área que o Senado havia construído, alguns anos mais cedo, dois arcos triunfais celebrando as dinastias Valentiniana e Teodosiana. Era por essa área que os imperadores agora entravam em Roma, após visitarem a basílica de São Pedro. Mais do que sinal de “decadência” ou do “declínio” da Roma antiga, a ocupação popular do Campo de Marte foi um sinal da continuada vitalidade da (ainda) capital do império, e um importante lembrete de como grupos muito distantes das elites podiam participar da produção do espaço urbano de modo determinante.


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